domingo, 25 de maio de 2014

TENTANDO DESLIGAR O SCANNER

          Se há algo que eu tenho dificuldades de lidar, no mundo tecnológico, e que eu raramente consigo me acostumar, é o scanner. Todos os rituais que envolvem  ligar, ajustar, copiar, analisar, reajustar, salvar e enviar me deixam meio perdido e acabo fazendo algo errado. Sempre foi difícil entender o processo de cópia e reprodução, quando na verdade eu prefiro, em todos os sentidos, o original, não a cópia.
            O fato de algo ser detalhadamente reproduzido em poucos segundos é quase místico. O scanner se torna uma máquina de clones que produz, virtualmente, o que existe em materialidade.  E no final, qual dos dois se torna mais importante? O objeto escaneado, ou o arquivo virtual? Escolhemos trabalhar com o que é concreto, palpável e passível de diversas formas de interação, ou com o que escaneamos, virtualmente, e que possui as restrições dos pixels?
            Esse tipo de escolha pode ser carregada para tudo na vida, fazendo de nós um scanner humano. Escanemos pessoas, antes de nos permitirmos conhecê-las; escaneamos lugares, sentimentos, possibilidades e coisas, sem sentirmos suas múltiplas perspectivas possíveis. Basta-nos um olhar, de cima a baixo, para então arrotarmos nossas impressões corretíssimas, inequívocas, sobre o que acabamos de conhecer. Somos um scanner que capturaria a imagem da alma, mas que no final, não consegue reproduzir nada daquilo. Os pixels, geralmente, saem embaçados, confusos e ilegíveis.
Quando olhamos o mundo sob a perspectiva do scanner, criamos um perfil sob o olhar que escrutina e, a partir disso, começamos a agir com presunção e arrogância com um julgamento preliminar. Isso não serve apenas para pessoas, mas para fatos e como os interpretamos; utilizamos o scanner como elemento de proteção, mas no fundo isso nos isola mais ainda das pessoas, das experiências da vida.
Os arquivos, geralmente, vêm corrompidos de pequenas leviandades que nutrem o nosso ego e reforçam o caráter reativo que temos. Bloqueamos o que o outro pode nos oferecer em sua multiplicidade e, como se o mundo fosse passível de rápida análise, delimitamos padrões pré-estabelecidos naquele documento. Depois disso, um arquivo é criado e, com ele, definimos os padrões (que já foram anteriormente definidos, conforme nossos medos e inseguranças) a serem seguidos.
O nome do arquivo, geralmente, é sarcástico, ferino. E desse arquivo, fazemos chacota; rimos dele, bloqueamos as múltiplas possibilidades de vivenciar o todo, já que o nosso scanne gera uma imagem unidimensional, a do sarcasmo.
Como o scanner que temos de lidar não é uma máquina com manual de instruções, mas nossos sentidos, as coisas sempre saem piores do que deveriam. A incompatibilidade do “software dos sentidos” com o “software do vivenciar” é que gera uma desavença: não há como, na tecnologia da alma, associar uma impressão rasteira com o significado profundo do existir. E nosso sistema trava, nossa vida não caminha, nosso hardware acusa defeitos.
Então vem a pergunta ainda sem resposta: como deletar o nosso scanner, como desligar na tomada e cortar, de uma vez por todas, a energia que julga, rotula e restringe nossas possibilidades de vivermos completamente o que desejamos?

Para começar, o caminho pode ser tentar olhar melhor o que queremos escanear, sem a pretensão do software, mas com a simplicidade da alma. Se fizermos a atualização da nossa consciência, para termos sabedoria e compreendermos que o scanner pode servir como proteção, mas também como bloqueio, podemos começar a viver, sem a pressa tecnológica, o que a vida nos presenteia diariamente.




sábado, 24 de maio de 2014

10 ANOS DE RE-INVENTION TOUR!

             O ano era 2003. Após o fracasso de vendas de um dos álbuns mais intimistas de sua carreira, American Life, que aborda tons mais sombrios de sua natureza e discute temas controversos para os Estados Unidos, como política, família e religião, Madonna precisava criar algo novo, mas que não fugisse do discurso pregado no álbum recém-lançado. O vídeo-clipe da música American Life, lançado quase em conjunto com o álbum seria um clamor à paz, com cenas densas, mostrando soldados feridos, crianças abandonadas, todo um conjunto deplorável que assistimos nas guerras; o final do vídeo é um emblema de seus desejos e pensamentos: George W. Bush beija Saddam Hussein, e depois encosta sua cabeça no ombro do líder iraquiano, tudo explodido por uma granada, que fora jogada, evidentemente, pela popstar.
            Mas o plano de marketing saiu pela culatra, pois dias depois do lançamento do vídeo, foi declarada uma guerra no Oriente Médio, ainda baseada no fatídico ataque ocorrido em 11 de setembro de 2001. Madonna preferiu recuar e tirou o vídeo de circulação, lançando outro, menos agressivo (menos inteligente, menos provocador, também). O que era um vídeo provocante tornou-se um hino à mediocridade, com Madonna cantando na frente de dezenas de bandeiras de vários países.
            Eis que, como em toda sua carreira, Madonna resolve reinventar-se, para não perder espaço – nem dinheiro – e resolve investir em uma turnê pela Europa e Estados Unidos com um novo e dinâmico show, vendendo em suas apresentações o que sobrava em seu álbum: a busca por alguma ética. Inicialmente, a turnê chamaria “The Whore of Babylon”, uma referência óbvia à imagem que sempre atraiu a cantora a seu público: a prostituta; mas essa efígie seria provocadora demais, e após poucos dias, Madonna desmentiu a história e deu o nome, que se tornou oficial: THE RE-INVENTION TOUR.
O nome, nem um pouco desconexo, traduz o que Madonna vivia na época. A ideia de reinventar-se estava profundamente atrelada à Cabala, uma sabedoria mística que se amalgamou, nos conceitos religiosos vivenciados por Madonna, ao judaísmo.  Em seus cartazes de divulgação, a árvore da vida, estilizada com o nome da turnê, estava sempre presente. Conceituando seu espetáculo como a “Turnê da Reinvenção”, Madonna proclama que deve reinventar-se para seus fãs e eles devem, também, reinventarem-se para a vida, tornando-se pessoas melhores a cada dia. Atrelado a isso, ela apropriou-se do título camaleônico que sempre a perseguiu, usando o que os meios de comunicação julgavam dela como mecanismo para definir-se, em outros paradigmas:

Madonna pensou no título Re-Invention Tour porque durante anos todos  disseram que ela estava sempre se reinventando – disse ele (Jamie King) – e, como é típico de Madonna, ela brincou com esta ideia e a usou contra aqueles que a usavam. (O’BRIEN, 2008, p. 360)

O início do projeto já definia que perfil de turnê Madonna queria alcançar. Além das extensas filmagens, ela chamou Christian Lacroix, Jean Paul Gaultier, Miuccia Prada, Stella McCartney e Karl Lagerfeld para produzirem os diversos figurinos usados durante cada bloco do show, Stuart Price, músico consagrado na Europa, tornou-se o diretor musical e Jamie King, o coreógrafo e diretor de palco. Quem produziu o documentário foi o já famoso diretor Jonas Ӑkerlund. Selecionando os melhores entre os melhores, a turnê pretendia ser o grande evento do ano:           
Por conta de sua escala de magnitude e de seu foco nos grandes sucessos, a turnê Re-Invention, naquele verão, foi uma maneira que Madonna encontrou de devorar a concorrência. (O’BRIEN, 2008, p. 359)

Madonna pretendia desbancar todas as outras turnês daquele ano, resgatando seus clássicos da música pop, remetendo às imagens diversas que ela construíra ao longo de mais de vinte anos de carreira.
Madonna, ao fazer uma turnê que homenageia sua própria história camaleônica, trouxe para seu público um estilo que todos esperam. Aqueles que se espelham na cantora e em sua teatralidade narcísea encontram uma Madonna superexposta. Mas não como a de costume, que faz arte engajada de liberdade sexual. A Madonna reinventada é menos sexualizada e muito mais política. Após esgotar seu discurso sobre liberdade sexual e feminismo, a Madonna reinventada motiva seu público com ideias que abrangem o universo religioso, a política americana e a visão que os americanos construíram de família.
O primeiro show aconteceu em 24 de maio de 2004, há exatos dez anos, em Los Angeles, CA. Mesmo com alguns problemas técnicos, comuns de primeiro show, obteve exatamente o planejado pela equipe. Os meios de comunicação adoraram. A jornalista Liz Smith, sobre a Re-Invention Tour, em sua coluna diária no New York Post, declarou:

Ela pode ser uma esposa quase britânica, mãe de dois filhos, autora de livros infantis, devota da Kabbalah e fazer um disco que nem todo mundo gostou. Mas bastou ela dizer que vai voltar aos palcos que o ano de 1984 está todo de volta. Ela ainda é a Rainha! (In: www.madonnaonline.com.br)

O show era programado para estimular todos os sentidos humanos, numa explosão de palcos flutuantes, esteiras, telões jamais vistos anteriormente. Isso, atrelado ao ideal americano de novidade, era exatamente o que o mercado almejava. Pois a imensa “estimulação sensório-motora”, realizada no palco, mas também comum na nova modernidade, auxilia na construção de “corpos superexcitados” que se adaptam mais facilmente às novas formas de consumo, que se tornam rapidamente obsoletas. E nada mais fácil de consumir e tornar-se obsoleto do que um show.
A turnê era dividida em cinco blocos diferentes, claramente demarcados, com interlúdios para troca de figurinos. O primeiro bloco começa com imagens e vídeos em telões, acompanhados da música The beast within, que é uma compilação de trechos da Bíblia, mais especificamente, partes do apocalipse. Na tela, uma Madonna atormentada, com movimentos mecânicos em função da sobreposição das fotos. O que se vê são trechos do ensaio feito com o fotógrafo Steven Klein, intitulado X-STaTIC PRO=CeSS. Assistimos à Madonna, com um visual atemporal, feito por Christian Lacroix e, ao lado, há um chacal, vestidos incendiando; tudo em um ambiente lúgubre .
Em seu I’m going to tell tou a secret, uma das primeiras cenas de bastidor é a artista explicando as referências bíblicas da abertura do show. Ela diz que a “besta” a que se refere, segundo uma interpretação das metáforas religiosas, é o mundo moderno, o consumo, o excesso de materialismo, que devora o homem e o faz submisso a uma força totalmente destrutiva. O que visualizamos, no show, é exatamente o tormento de alguém que parece estar sendo devorado por algo invisível, mas extremamente poderoso.
Quando a cantora sobe ao palco, seu visual é Rococó, lembrando a Marie Antoinette do VMA dos anos 1990, sendo que seu corset é mais moderno, livre para os movimentos de Pilates e de Yoga. Os telões absorvem o público com um cenário que mistura os corredores de Versailles, salas no estilo Louis XVI e Madonna vestida como a última rainha da França.
Este é o bloco menos engajado, talvez por se tratar do início. É a apresentação grandiosa e grandiloquente a fim, apenas de seduzir o público com imagens majestosas. Destacamos os vídeos de Chris Cunningham, exibidos nos telões, enquanto Madonna canta Frozen, pois eles têm sugestões homoeróticas, como um balé agressivo em um ambiente que remete a uma câmara embrionária. Nessas imagens, o duelo de corpos, associado ao amor e à dor, é um movimento que traz ao público a angústia e a violência silenciosa do preconceito, que conforme a letra, é traduzida “when your heart is not open”.
O segundo bloco, com espírito militar – e militante – narra cenas de guerra, movimentos corporais que remetem aos soldados em campos de concentração. As músicas são num estilo rock and roll e ela veste uma farda do exército.
Destaca-se a desconstrução religiosa, pois na música American Life, que abre o bloco, vários bailarinos usam vestimentas típicas de diversas religiões, mas com um tom mais erotizado, como freiras com hábitos curtíssimos e padres com trejeitos gays.
No documentário I’m going to tell you a secret, Madonna declara que “religião é fragmentação”, por isso os bailarinos, ao longo da dança, despem-se para ficarem mais próximos. A roupa, nesse caso, simbolizaria a fragmentação das religiões e desnudar-se seria a igualdade entre todos. É o meio que ela encontra para começar a inserir, delicadamente, um juízo sobre a questão da Palestina e de Israel, já que os judeus e mulçumanos despem-se mutuamente, por último, abraçando-se, quando estão apenas de roupas íntimas.
Logo depois, entram no palco várias réplicas de fuzis, servindo de bastões para os bailarinos e a cantora realizarem a coreografia, que mistura passos de circo com o de soldados. Podemos analisar essas armas “desarmadas” como metáforas de uma desvalorização do potencial bélico e o enobrecimento da função estética que a arma ganha.
Talvez este bloco tenha sido o mais controverso do show, pois os apelos políticos, as imagens visualizadas nos telões, a própria coreografia, tudo pressupunha um desejo anti-guerra, a necessidade de rever valores e, principalmente, a importância de os americanos pensarem na hora de escolher seus governantes. Madonna arriscara-se ao colocar, novamente, sua carreira a serviço de suas convicções, buscando orientar seu público, explicitando o que ela enxergava como identidade americana, na era Bush.
Do terceiro bloco do show, que remete aos cabarés da década de 1920 e ao carnaval europeu, o ponto alto da crítica social é a última música. Numa cadeira elétrica, Madonna canta Lament, música escrita especialmente para o filme Evita, de 1996. A associação da música com a cena remete não mais ao filme, mas às situações dos próprios Estados Unidos naquele momento.

The choice was mine, and mine completely
I could have any prize that I desired
I could burn with the splendor of the brightest fire
Or else, or else I could choose time

O que se visualiza não é apenas Madonna em uma cadeira elétrica. Assim como todas as outras metáforas dos outros blocos, essa também tem a intenção de desconstruir o valor real – matar – e elaborar uma significação outra. O elemento que auxilia isso está sendo exibido nos telões: um símbolo hebraico, um dos 72 nomes de Deus, que indica negação do ego. Mas ele também representa novos governos e novas formas de vitória e de conduzir o mundo. Já a cadeira, nesse contexto, tanto pode ser lida como o objeto de tortura e morte, como o próprio trono – mesmo porque a cadeira sobe, leva Madonna para o alto do palco. Enquanto ela canta como soberana, a cadeira que a leva para o topo é, também, o fim de reinado.
No quarto bloco, mais religioso, cheio de referências familiares, mas ainda refletindo sobre política e paz, as duas últimas músicas são o clímax. Quando Madonna canta Mother and Father e Imagine, há um forte apelo emocional com as imagens dos telões.
Assistimos à Madonna católica, rezando aos pés do Cristo, em frente ao Sagrado Coração. As imagens de fundo soam como representações de suas raízes familiares. Ensinada, desde cedo, a ir à igreja e a viver sob os dogmas católicos, ela mostra, nesse trecho do show, que mesmo depois de assumir o judaísmo e a Cabala, seu passado não é negado. Madonna canta sentada, já que se dedica, também, ao violão; a música é Mother and Father, composta como uma catarse, já que é uma reflexão madura e coerente sobre a perda de sua mãe, quando a artista tinha apenas cinco anos de idade:

My mother died when I was five
And all I did was sit and cry
I cried and cried and cried all day
Until the neighbors went away

They couldn't take my loneliness
I couldn't take their phoniness
My father had to go to work
I used to think he was a jerk

I didn't know his heart was broken
And not another word was spoken
He became a shadow of
The father I was dreaming of

I made a vow that
I would never need another person ever
Turned my heart into a cage
A victim of a kind of rage

O quinto e último bloco, o mais dançante, inicia com dança e música escocesa, incluindo um tocador de gaita-de-foles. Trazendo ao público seus maiores clássicos, como Music, Papa don’t preach, Crazy for You e Holiday, a audiência envolve-se como no início, mas já transformada, e principalmente, carregada pelas emoções dos blocos anteriores. A performance de Madonna alterara o estado de ânimo do público e fizera dele um tentáculo do palco. Mas é emblemática a conclusão do bloco– terminando, assim, o show. Cantando Holiday, proclamando o direito de liberdade de expressão e a necessidade de celebrar a vida, encerra-se a apresentação com uma Madonna extremamente à vontade, que para os menos atentos, parece até não estar mais realizando coreografias.
Ao fundo, bandeiras de todos os países se misturam, remetendo ao segundo videoclipe de American Life. As bandeiras, entrelaçadas, sugerem a integração dos povos. Fica óbvio o desejo da artista quando o projetor congela, propositalmente, nas duas últimas bandeiras unidas, formando apenas uma: Israel e Palestina, naquele momento, tornam-se um único povo, pelo menos no que se refere aos símbolos estandartes.
A última mensagem, concluindo a noite para seu público, é a frase RE-INVENT YOURSELF, solicitando à audiência que faça como a artista, que os fãs sigam os conselhos de seu ídolo.
            Alguns anos depois, quando tivemos a chance de assistir aos bastidores da turnê, aos fatigantes ensaios, escolhas de dançarinos e, principalmente, tivemos a chance de ouvir a voz de uma Madonna (sempre atriz) familiar, mãe, esposa, filha e amiga pudemos comparar a turnê com suas mensagens originais, através das falas da artista. O processo de criação de um show desse porte é sempre maior do que o imaginado. Talvez, por isso, o desejo de refazer sua imagem de bastidor, de “reinventar-se” para seu público, como fez em 1991, em Truth or Dare: na cama com Madonna.
Os bastidores, em alguns momentos, mais se assemelham a uma reunião religiosa, com direito de pregação de um mestre de Cabala do que a um filme da Madonna. Não estamos condenando o que foi escolhido como material publicado, pelo contrário: ressaltamos o valor ético de sua obra, que tenta levar para o resto do mundo o que apenas algumas cidades tiveram acesso, em 2004. O DVD I’m going to tell you a secret, assim, finaliza a proposta ética de Madonna, cantora performática e criadora imagens, vendedora de si mesmo, mas que se propõe, também a vender mais que álbuns, vídeos e shows: vende política, paz, solidariedade.
Sua voz deixa de ser o ponto forte, enquanto cantora, para tornar-se um grão no palco. A performance, amalgamando os vídeos, coreografias e atuações são o verdadeiro grito da artista.
O movimento da dança, por si só, faz balançar a crença nesse mundo verdadeiro e transcendente. A cadência, a dança põe em xeque a aparente imobilidade das coisas, a rigidez imposta ao pensamento, a fixidez forjada pelas palavras. Com o ritmo, o mundo deixa de ser estável; com os gestos, a linguagem deixa de ser unívoca. E as idéias ganham leveza. Mas é preciso um longo caminho para o espírito tornar-se livre de suas antigas convicções e ganhar a leveza de um dançarino. É preciso reinventar-se, seguir o conselho de Madonna para tornar-se mais livre e, como ela declarou em seu documentário, “ver o mundo através dos olhos de uma criança”.





domingo, 18 de maio de 2014

EVERYWHERE

A música que abre meu domingo é Everywhere, do Bran Van 3000

Ela me faz lembrar de alguns, pouquíssimos, nomes. Poucos que sobram dedos de apenas uma mão se eu os contar. E acredito que as pessoas "Everywhere" saibam a quem se refere, pois sinto ter deixado essa pista...



Whispering,
Whispering,
Whispering your name.
You're everywhere, everywhere, everywhere,
To me.
Everywhere, everywhere, everywhere,

To me!


terça-feira, 13 de maio de 2014

ESPERANÇA OU CINISMO?

             Se hoje temos de pensar em como agimos, como nos comportamos diante dos outros, quando pensamos em nossa vida emocional, ter esperança é sempre o termo mais adequado quando não sabemos, ainda, que rumos estamos definindo. E definir rumos, quando se trata da vida emocional, de como faremos para construir qualquer possibilidade de sucesso (existe essa palavra no dicionário de Afrodite?) na vida afetiva, estamos mais cínicos ou esperançosos?

            O cinismo remete, sempre, à ideia de falsidade, de criar elementos que fogem do que acreditamos ser coerentes com o que pensamos. E um de seus sinônimos é impostor! Mas seríamos, hoje, impostores, quando falamos que acreditamos no amor, na possibilidade de durar para sempre, quando expressamos profunda esperança no próximo, mas no fundo temos a sensação de descrença, faltando-nos fé?

            Seríamos, então, cínicos em nossa vida afetivo-sexual, já que sempre propagamos a ideia de amor pleno e de eterna comemoração, mas quando na verdade estamos desamparados, sozinhos, com medo e inseguros? 

            Quando eu era menino, tinha alguns gatos. Cresci com eles, foram meus grandes amigos até uns nove anos de idade. Ali, eu acreditava na existência de um amor pleno e absoluto entre mim e aqueles animais. Éramos só nós, ninguém poderia estragar nossa relação. Mas tive de mudar de casa e meus pais optaram por não levar os felinos, já que um apartamento não comportaria os bichos com o mesmo conforto de antes. Vi-me, pela primeira vez, tendo de ser cínico: disse que não havia problemas, que me adaptaria à vida nova, sem meus amores.
           
            Mas não era verdade. Chorava, escondido, com saudades dos meus amigos. Reclamava, bradava dentro dos travesseiros a saudade que ardia em meu peito. E declarar isso seria uma vergonha; um homenzinho não podia sentir saudades nem chorar por gatinhos. Criava subterfúgios, acabei desenvolvendo outras formas de expressar a minha insegurança e o meu medo por não ter por perto quem eu amava.

No fim, não adiantou nada: o que eu escondi tornara-se, em outro nível, mais doloroso. Então o cinismo de um menino de nove resultou em mais dor, em mais angústia. Hoje, aos trinta e dois, ainda estou remoendo essas imagens.  E fico pensando em tantas outras vezes que fingi esperança para o mundo, quando, na verdade, era cinismo.

Trocamos a verdade de nossa alma por um preço mais barato do que acreditamos pagarem. Vendemos  sentimentos que não são nossos e em troca, a moeda de recebimento é vazia. Porém isso quer dizer que a esperança não exista?

Pelo contrário! A verdadeira esperança mora exatamente na sinceridade. Quando assumimos nosso medo, quando externalizamos nossas angústias e exorcizamos o que nos apavora conseguimos retirar a neblina pesada do cinismo e enxergamos a luz que nos habita. Ao eliminarmos nossa tentativa de sermos felizes, assumimos a nossa vontade de fazermos de nós mesmos um meio de felicidade e não o seu fim.


Caso eu tivesse de abandonar de novo meus gatinhos (e tenho abandonado alguns outros tipos de gatos de vez em quando...) em função dos percalços da vida, o que posso dizer é que a vida é assim mesmo. A vida às vezes parece ser uma porcaria. Mas nem sempre. E o cinismo não doura pílulas, mas as enegrece; e qual o antídoto? Não ter esperança. Porque esperança não é uma posse. É senti-la, é fluí-la na vida, deixar que ela venha. Pois se a esperança vier, ela traz o que esperamos junto.


sábado, 10 de maio de 2014

AS ÁGUAS DA VIDA

Nos dias de hoje, as noções de encontro e confronto se confundem tanto, que parecemos perdidos, na multidão. Encontrar, esbarrar e confrontar são quase as mesmas coisas. Quando achamos que encontramos alguém, foi apenas um esbarrão. Quando esbarramos, nasce um confronto. E de um confronto, há uma possibilidade de encontrar alguém que valha a pena. Ou não...

O problema da mistura dessas situações é que vínculos que nascem logo morrem. Não temos a chance de semearmos afetos, elaborarmos ideias e nutrirmos sentimentos. Enterramos as possibilidades de um relacionamento com a mesma velocidade que corremos no nosso horário de almoço. E não temos, no fim, a saciedade; apenas a sensação de profundo vazio e o medo da solidão ainda mais acentuado.

Nas últimas semanas, tenho percebido, sentido e vivenciado como estamos (ou somos?) fadados à liquidez sentimental, mas de forma turva. Apagamos da memória - e do nosso corpo - a presença de pessoas com quem pensamos haver alguma esperança de romance, diluímos sentimentos, evaporamos da vista dos outros e depois condensamos nossas dores em subterfúgios ilógicos.

Essa semana, saí com três grandes amigas, para comermos e bebermos, colocarmos alguns assuntos em dia e multiplicarmos nossas exasperações, esperanças e planos. Uma garrafa de vinho e duas pizzas depois de chegarmos, já estávamos rindo e falando o que realmente pensávamos. Foi quando percebi que estávamos compartilhando, basicamente, da mesma angústia da liquidez. Discutíamos nossas vidas - eu, como sempre, com mais eventos absurdos e cômicos que as meninas, mas todos estávamos mergulhados num mar de incertezas e lacunas da vida emocional.

As representações das divindades do Amor são sempre associadas à ideia de água. E a água é impossível de ser moldada. Não se faz nada sólido ou firme com ela; podemos congelá-la, mas o resultado será uma construção fria, em que o contato físico se torna dolorido. As águas das deusas do amor são mornas, para mergulharmos, deixarmos a maré nos levar, de olhos fechados. Mas quem, hoje, tem a coragem de se entregar a essas águas, que podem nos afogar na paixão?

Mapeando minhas últimas semanas, permiti-me sentir o que eu estou tentando fazer na minha vida afetiva; o que estou pensando em construir, mas como meu material é líquido, e não se constrói nada com isso, tenho me sentido perdido, sem saber o que fazer.

Quem consegue assumir a responsabilidade de viver mergulhado num lugar em que respirar é difícil, olhar arde os olhos e segurar em algo é quase impossível?

Preferimos a dureza da terra, a firmeza dos nossos pés no chão. Preferimos a certeza de estarmos protegidos, termos o controle e o domínio sobre nossas ações e não deixarmos que o improvável tome conta de nossos planos. Mas a terra sem água é seca, infértil, incapaz de semear e nutrir. Vivemos com a fome de quem habita uma terra sem alimentos. Estamos secos, querendo a água, mas temos medo do afogamento.

No fim, conhecemos pessoas que poderiam molhar nossa alma, segurar nossas mãos num mergulho, mas as soltamos com medo de nos afogarmos. Não estamos, hoje, entendendo que encontrar alguém não é se perder. Encontrar pode ser se encontrar. Nossa perdição está nesse eterno confronto, que julgamos ser algum tipo de encontro. Confrontamos nós mesmos, pois não assumimos, no fim das contas, que somos quase totalmente feitos de água; líquidos e cheios de possibilidades de amar.