quarta-feira, 11 de maio de 2011

ELE ME BEBEU, DE CLARICE LISPECTOR


É. Aconteceu mesmo.
Serjoca era maquilador de mulheres. Mas não queria nada com mulheres. Queria homens.
E maquilava Aurélia Nascimento. Aurélia era bonita e, maquilada, ficava deslumbrante. Era loura, usava peruca e cílios postiços. Ficaram amigos. Saíam juntos, essa coisa de ir jantar em boates.
Todas as vezes que Aurélia queria ficar linda ligava para Serjoca. Serjoca também era bonito. Era magro e alto.
E assim corriam as coisas. Um telefonema e marcavam encontro. Ela se vestia bem, era caprichada. Usava lentes de contato. E seios postiços. Mas os seus mesmos era lindos, pontudos. Só usava os postiços porque tinha pouco busto. Sua boca era um botão de vermelha rosa. E os dentes grandes, brancos.
Um dia, às seis horas da tarde, na hora do pior trânsito, Aurélia e Serjoca estavam em pé junto do Copacabana Palace e esperavam inutilmente um táxi. Serjoca, de cansaço, encostara-se numa árvore. Aurélia impaciente. Sugeriu que dessem ao porteiro dez cruzeiros para que ele lhes arranjasse uma condução. Serjoca negou: era duro para soltar dinheiro.
Eram quase sete horas. Escurecia. O que fazer?
Perto deles estava Affonso Carvalho. Industrial de metalurgia. Esperava o seu Mercedes com chofer. Fazia calor, o carro era refrigerado, tinha telefone e geladeira. Affonso fizera quarenta anos no dia anterior.
Viu a impaciência de Aurélia que batia com os pés na calçada. Interessante essa mulher, pensou Affonso. E quer carro. Dirigiu-se a ela:
- A senhorita está achando dificuldade de condução?
- Estou aqui desde as seis horas e nada de um táxi passar e nos pegar! Já não agüento mais.
- Meu chofer vem daqui a pouco, disse Affonso. Posso levá-los a alguma parte?
- Eu lhe agradeceria muito, inclusive porque estou com dor no pé.
Mas não disse que tinha calos. Escondeu o defeito. Estava maquiladíssima e olhou com desejo o homem. Serjoca muito calado.
Afinal veio o chofer, desceu, abriu a porta do carro. Entraram os três. Ela na frente, ao lado do chofer, os dois atrás. Tirou discretamente o sapato e suspirou de alívio.
- Para onde vocês querem ir?
- Não temos propriamente destino, disse Aurélia cada vez mais acesa pela cara máscula de Affonso.
Ele disse:
- E se fôssemos ao Number One tomar um drinque?
- Eu adoraria, disse Aurélia. Você não gostaria, Serjoca?
- É claro, preciso de uma bebida forte.
Então foram para a boate, a essa hora quase vazia. E conversaram. Affonso falou de metalurgia. Os outros dois não entendiam nada. Mas fingiam entender. Era tedioso. Mas Affonso estava entusiasmado e, embaixo da mesa, encostou o pé no pé de Aurélia. Justo no pé que tinha calo. Ela correspondeu, excitada. Aí Affonso disse:
- E se fôssemos jantar na minha casa? Tenho hoje escargots e frango com trufas. Que tal?
- Estou esfaimada.
E Serjoca mudo. Estava também aceso por Affonso.
O apartamento era atapetado de branco e lá havia escultura de Bruno Giorgi. Sentaram-se, tomaram outro drinque e foram para a sala de jantar. Mesa de jacarandá. Garçom servindo à esquerda. Serjoca não sabia comer escargots e atrapalhou-se todo com os talheres especiais. Não gostou. Mas Aurélia gostou muito, se bem que tivesse medo de ter hálito de alho. Mas beberam champanha francesa durante o jantar todo. Ninguém quis sobremesa, queriam apenas café.
E foram para a sala. Aí Serjoca se animou. E começou a falar que não acabava mais. Lançava olhos lânguidos para o industrial. Este ficou espantado com a eloqüência do rapaz bonito. No dia seguinte telefonaria para Aurélia para lhe dizer: o Serjoca é um amor de pessoa.
E marcaram novo encontro. Destava vez num restaurante, o Albamar. Comeram ostras para comerçar. De novo Serjoca teve dificuldade de comer as ostras. Sou um errado, pensou.
mas antes de se encontrarem, Aurélia telefonou para Serjoca: precisava de maquilagem urgente. Ele foi à sua casa.
Então, enquanto era maquilada, pensou: Serjoca está me tirando o rosto.
A impressão era que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de carne. Carne morena.
Sentiu mal-estar. Pediu licença e foi ao banheiro para se olhar ao espelho. Era isso mesmo que ela imaginara: Serjoca tinha anulado o seu rosto. Mesmo os ossos - e tinha uma ossatura espetacular - mesmo os ossos tinham desaparecido. Ele está me bebendo, pensou, ele vai me destruir. E é por causa do Affonso.
Voltou sem graça. No restaurante quase não falou. Affonso falava mais com Serjoca, mal olhava para Aurélia: estava interessado no rapaz.
Enfim, enfim acabou o almoço.
Serjoca marcou encontro com Affonso para de noite, Aurélia disse que não podia ir, estava cansada. Era mentira: não ia porque não tinha cara para mostrar.
Chegou em casa, tomou um banho de imersão com espuma, ficou pensando: daqui a pouco ele me tira o corpo também. O que fazer para recuperar o que fora seu? A sua individualidade?
Saiu da banheira pensativa. Enxugou-se com uma toalha enorme, vermelha. Sempre pensativa. Pesou-se na balança: estava com bom peso. Daí a pouco ele me tira também o peso, pensou.
Foi ao espelho. Olhou-se profundamente. Mas ela não era mais nada.
 Então - então de súbito deu uma bruta bofetada no lado esquerdo do rosto. Para se acordar. Ficou parada olhando-se. E, como se não bastasse, deu mais duas bofetadas na cara. Para encontrar-se.
E realmente aconteceu.
No espelho viu enfim um rosto humano, triste, delicado. Ela era Aurélia Nascimento. Acabara de nascer. Nas-ci-men-to.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

TILL DEATH DO US PART??


  Era imaginando como há diversas dificuldades para manter um relacionamento, como é difícil assumir para si mesmo e, principalmente, para o parceiro, que se é humano, como é complicado manter e desenvolver a imagem transparente de si mesmo, que se começa escrever.
  Porque quando o Mr. Big bate à porta, todas as desvantagens de um relacionamento à distância vêm junto com as milhares de vantagens de encontrar um namorado perfeito.
 Querer beijar alguém que está miles away e não ter esta oportunidade; sentir desejo, vontade de fazer amor, e ter ou de esfriar a cabeça num banho gelado, ou resolver-se sozinho; anular-se socialmente para dedicar mais tempo a um computador, pois do outro lado da tela, encontra-se o quem amamos; buscar argumentos fortes para justificar aos outros (na verdade, a si mesmo) que o que existe é forte e duradouro, e que a situação que vive, a de distanciamento físico, é temporária.
  Muitas são as intempéries da paixão virtual. Mas a pior delas é não ter a certeza de que, no final de um longo e cansativo dia, no sol quente de verão e efeito estufa, não será encontrado um ombro macio e acolhedor, muito menos um abraço apertado que alivia qualquer tensão.
  Neste momento, o que resta é o pensamento de que está ficando maluco em manter algo assim, que a melhor saída é livrar-se deste empecilho e partir para algo palpável, literalmente. Pois acreditar que se pode viver de amor digitado, somente para quem é hacker.
  A solução, portanto, é cair fora, antes que outro perceba isso também e abandone. Porque abandonar é mais fácil do que ser abandonado, principalmente à distância. Muita mais saudável emocionalmente é ver no Orkut do outro a cara de triste enquanto você já está em outras baladas, com outras pessoas. Ninguém quer, conscientemente, sofrer. Por isso é mais fácil sair do que ficar esperando alguém que nunca vem.
 Realmente, esse seria o caminho mais lógico. Mas trata-se de amor. Trata-se de desejo, de afeto. E nesta hora, lógica é a última coisa que se conta. Sim, aguarda-se semanas para o primeiro olho no olho, espera-se mais de um mês para trocar o primeiro beijo, sexo, então, dois meses depois.
 Mas o esperado acontece e acaba sendo melhor que o imaginado, que o delirado, em algumas situações. Porque se fala de Mr. Big, não de qualquer um. E exatamente por se estar falando do homem com quem se deseja passar o resto da vida, é que vale a pena a espera, a angústia, as incerteza e dúvidas. Supera-se a ansiedade e a insegurança, em troca de uma certeza maior, a confiança de que encontrou um amor que está aí e é verdadeiro.
  E apostando neste amor, é que se inverte a ideia do till death do us part para till net do us keep together, for ever and ever.


sábado, 7 de maio de 2011

EROTISMO E TÉDIO...

Adoro esse poema da Marina Colasanti. Acho-o doloroso, seco e tragicamente imaginativo. 


Sexta-feira (Marina Colasanti)


Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.




DE OSCAR WILDE

Tirem de mim as roupas e minh'alma vai junto.



O NOME JÁ DIZ TUDO!

Coisas que tem na net: um blog que tem o meu no meio, como referência. É o http://luizliteral.blogspot.com/.
Coloquei na minha listinha de blogs favoritos, não só porque o dono também é Luiz, mas porque vale a pena! É cheio de indicações muuuito interessantes de Literatura e Gramática.







E EU SABIA A COREOGRAFIA!!!!

Na época, Natasha, com Sympathy for the devil e Madonna com Vogue eram a mesma coisa para mim. Hoje, sei a razão:

  

VAMPIRO DE UM DENTE SÓ

Eis que há algumas semanas o canal Viva (Viva!) começou a reprisar VAMP. Nada mais traduz minha infância do que essa novela. Eu me sentia um pouco Natasha, Vlad e Sig ao mesmo tempo. Tinha cruzes pelo quarto, só andava com dentaduras vampirescas,chorava sangue de katchup, tomava suco de tomate (que era horrível, mas adorava o visual) e colecionava o álbum de figurinhas como se fossem valiosíssimas jóias de família. 
Hoje, revendo a novela, muito mais do que rir de Matoso, o vampiro de um dente só, revivo minha vida pueril, minhas horas de criança que queriam entender o mundo através dos olhos amarelos de um vampiro. Vejo muito do meu barroquismo pessoal, do meu talento para a performance mexicana naquelas cenas. 
A cruz de São Sebastião fez de mim um pouco católico, não nego, mas Natasha e Gerald é que, definitivamente, contituíram parte da identidade de um moleque de nove anos, completamente influenciável, e que, ainda hoje, acha que é um pouco vampiro-dramalhão.
Foi com VAMP, com um enredo bobo, simples, sem muito o que contar, com atores bons, cheios de trejeitos debochados e efeitos especiais toscos que eu cresci. Hoje, prefiro outros vampiros, menos caricatos, lógico; mas não perco um capítulo sequer da minha novela. Ou da minha infância?